Mentiras sinceras não interessam

Ilust. "School of Fish", Monette Enriquez

Ilust. “School of Fish”, Monette Enriquez

Joca é um pescador. Ele vai pescar todos os sábados. Joca vai sempre na loja de pescaria do bairro pra ver as novidades do mundo da pesca. Seu Fonseca, dono da loja, dava conselhos e ouvia as historias de Joca. As historias de Joca eram quase exclusivamente sobre pescaria. Seu Fonseca não acreditava em todas as historias de Joca mas Joca acreditava em tudo o que seu Fonseca contava. O velho seu Fonseca não tinha mais tempo para pescar pois a loja tomava todo o seu tempo. E por isso não podia mais contar mentiras de pescador. Uma vez, seu Fonseca, irritado com as lorotas de Joca, vendeu um anzol errado para Joca só de vingança. Na semana seguinte, Joca voltou com mais historias e nenhuma delas falava do famoso anzol. Tudo tinha corrido maravilhosamente bem, como sempre. Seu Fonseca ficou desconfiado se Joca era mesmo pescador ou se ele vinha ali só para poder contar umas mentiras de vez em quando. Num domingo de sol, seu Fonseca decidiu ver se Joca pescava mesmo. Pegou o carro e foi até o rio pra ver se achava Joca no lugar em que ele dizia pescar. Não achou. Na volta, passou em frente à casa de Joca e viu o falso pescador fazendo um churrasco com uns amigos. Joca odiava peixe. Tinha nojo só de ver. Seu Fonseca ficou sabendo que aquilo era mentira, tudo historia de pescador. Seu Fonseca sorriu por ser o rei da verdade. Para quem vive rodeado de mentiras, verificar a verdade com os próprios olhos ajudava a manter a sua esperança na humanidade.

E enquanto isso, num outro mundo paralelo, com um outro Joca e um outro seu Fonseca…

Joca gostava de navegar na internet. Ele ficava online todos os dias do seu trabalho, navegando no Facebook. Joca lê e partilha quase tudo o que encontra pela frente. Seu Fonseca, dono de uma loja de pescaria, era amigo de Joca no Facebook e lia atentamente tudo o que Joca partilhava. Foto-montagens, noticias indignadas, falsos tweets, tudo era devorado com impaciência pelo seu Fonseca, que comentava e partilhava tudo com fúria e raiva, fumegando pelas orelhas. Joca lia o Sensacionalista de fio a pavio e debatia as noticias com amigos na rede social. Eventualmente seu Fonseca participava desses debates e nunca se perguntara como Joca achava tanta noticia absurda, afinal o Facebook do seu Fonseca só tinha amigos chegados e amigos como Joca não contam mentiras. Seu Fonseca era um amante de verdades e um dos prazeres que tinha era ouvir as historias que os clientes contavam na sua loja. Seu Fonseca ficava espantado com a quantidade de noticias espantosas que lia no primeiro dia de abril de cada ano. Por uma coincidência inexplicável, essa era uma data propicia para fatos incríveis. No resto do ano, as notícias dos jornais eram menos espetaculares, mas felizmente os fatos que seu Fonseca lia diariamente no Facebook ajudavam a manter a sua esperança na humanidade.

Cinemas, cinemas, cinemas

Aproveitando a deixa da Cinemateca Francesa, que está organizando uma mostra sobre o cinema brasileiro, em cartaz em Paris até o dia 18 de maio, partilho aqui o trabalho do fotógrafo Stephan Zaubitzer.

Ele viaja pelo mundo fotografando salas de cinema. Algumas ainda ativas, outras já transformadas em igrejas ou supermercados, Zaubitzer reúne nesse trabalho uma parte da história de cada um de nós.

Confira as belas salas de cinema aqui e veja uma seleção especial apenas com salas brasileiras.

Para quem estiver em Paris, Stephan Zaubitzer estará no Cinéma du Panthéon no dia 8 de abril para autografar o seu livro CinéMaroc.

Escrevi um post sobre isso, mas posso tirar se achar melhor

– Sai um sanduba de presunto e cebola no capricho!

– Mas peraí eu pedi sem cebola…

– Ih, doutor, a cebola foi erro nosso, mas podemos tirar se achar melhor…


– Fizemos uma reserva de mesa para duas pessoas…

– Sim senhor, mas infelizmente nao aceitamos pessoas usando chapéu..

– Ah, não sabia, mas podemos tirar se achar melhor…


– Quem colocou esse adesivo do “Eu acredito em Duende” no meu carro?

– Fomos nós papai, mas podemos tirar se achar melhor…


– Cadê a segunda cópia da identidade?

– Nossa, esqueci! Vou ter que voltar em casa pra tirar um xerox…

– Não tem problema, podemos tirar se achar melhor…


– Escravos de Jó, jogavam Caxangá…

– Tira, põe, deixa ficar… mas podemos tirar se achar melhor…

Para entender melhor leia aqui a notícia.

Robô-jornalista, robô-leitor

Se você, leitor, reclamava da qualidade dos artigos da imprensa nos últimos tempos, não responda ainda, talvez eu tenha uma boa novidade para você. Se você, colega jornalista, reclamava da falta de emprego na profissão, não responda ainda, talvez eu tenha uma péssima novidade para você.

O portal do jornal Le Monde fez uma experiência inédita nas últimas eleições departamentais, ocorridas no último final de semana em toda a França: quase 36 mil artigos, noticiando os resultados de cada região francesa, foram escritos por um robô. Claro que escritos pode ser uma palavra forte, uma vez que o robô, programado pela agência Data2Content, preencheu os espaços de um texto pré escrito com os resultados de cada departamento e cidade, sem grande criatividade. Mas, por outro lado, tendo em vista a qualidade de alguns textos publicados na imprensa em geral nos últimos tempos, o robô francês poderia até ganhar um prêmio literário.

A agência chama os aparelhos de robô-redatores e evita usar a palavra “jornalista”, o que é compreensível, brincadeiras à parte. A agência de notícias americana Associated Press (AP) já usa nas suas redações, desde o ano passsado, um robô que redige uma parte dos relatórios para empresas como a gigante General Electric. Segundo Lou Ferrara, um dos editores da AP, os automatismos substituem tarefas como a coleta de dados, o que liberaria tempo dos profissionais para a análise e interpretação dos números.

O jornal Los Angeles Times publicou no ano passado uma notícia de cerca de dez linhas sobre um terremoto, totalmente redigida por um robô:

A shallow magnitude 4.7 earthquake was reported Monday morning five miles from Westwood, California, according to the U.S. Geological Survey. The temblor occurred at 6:25 a.m. Pacific time at a depth of 5.0 miles.According to the USGS, the epicenter was six miles from Beverly Hills, California, seven miles from Universal City, California, seven miles from Santa Monica, California and 348 miles from Sacramento, California.In the past ten days, there have been no earthquakes magnitude 3.0 and greater centered nearby.

This information comes from the USGS Earthquake Notification Service and this post was created by an algorithm written by the author.

 

De acordo com o mesmo jornal, a notícia sobre o terremoto foi revista por um jornalista antes de ser publicada também pela equipe física do jornal. O New York Times já usa algoritmos semelhantes na publicação dos anúncios de casamento do jornal, o que obviamente não tem o mesmo impacto de uma notícia sobre uma eleição ou um terremoto. Porém não devemos duvidar dos estragos familiares de uma notícia de casamento mal dada.

Um estudo recente publicado na Journalism Practice constatou que as pessoas, ao lerem dois artigos sobre o mesmo tema, têm dificuldade em saber qual deles foi escrito por um robô. O estudo é restrito porque utilizou apenas um artigo como exemplo e que descrevia um evento simples: o resultado de um jogo de futebol americano. Obviamente um texto sobre política econômica com entrevistas, análise e conclusão está ainda longe para os robôs do jornalismo.

Contudo, se os robôs ainda não tomaram o lugar dos jornalistas, tenho às vezes a impressão, baseado na caixa de comentários de muitos jornais e revistas de grande circulação, de que os robôs decidiram começar a sua tomada de poder pelo lado dos leitores.

JP Simões – Gosto de me drogar

gosto de me drogar
de beber como um louco
acho sempre que é pouco
quero engolir o mar
 
só assim me suporto
e então não me importo
de ouvir cantar o fado
e ficar deslumbrado com…
sei lá o quê.
 
com 10 copos a mais
fico novinho em folha
e parto à recolha
de 1000 conversas banais
 
tudo fica interessante
com mais um espumante
o meu país é lindo
e a humanidade é mesmo…
tão sei lá o quê, sei lá
 
ai será que a vida quer ser vivida
será que não
será que o sexo é só pra procriar
ou é só para armar confusão
 
dizem que tudo está predestinado
que não há nada a fazer
então mais vale estar embriagado
pois é o que tinha de ser
 
gosto de me drogar
como tantas pessoas decentes e honestas
como automedicar 
só assim me suporto
 
e então não me importo
de ser um cidadão
dar a contribuição para…
sei lá o quê
 
com um tiro na veia
chuto todo o mau gosto
para lá do sol posto
quase nada me chateia
 
tudo fica tranquilo
e eu já nem refilo
e o meu país é lindo
e a humanidade é mesmo tão
sei lá o quê, sei lá
 
ai será que a vida quer ser vivida
será que não
será que o sexo é só pra procriar
ou é só para armar confusão
 
dizem que tudo está predestinado
que não há nada a fazer
então mais vale estar embriagado
pois é o que tinha de ser

Assado de batata e abóbora

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Mudando de assunto e atendendo a pedidos, aqui vai a receita do Assado de batata com abóbora, adaptada do livro da Joana Roque (O Que Faço Hoje para Jantar?; Editora A Esfera dos Livros). A receita pode ser um acompanhamento de uma carne ou até o prato principal, depende da proporção do seu olho em relação à sua barriga. As doses abaixo são pra acompanhamento. Dá pra fazer com batata doce branca substituindo a abóbora ou a batata, ou a mais mesmo.

Ingredientes pra dois seres humanos:

5 ou 6 batatas médias e/ou 2 batatas doces

300 gramas de abóbora

1 cebola grande

Queijo para polvilhar e derreter (se usar um queijo mais fraco de sabor, acrescente queijo parmesão ou equivalente pra dar um up no sabor)

Pimenta-do-reino

Coentro fresco

Azeite

Sal

Folha de papel vegetal

Mapa da mina:

1) Forre uma assadeira grande com o papel vegetal. Isso vai te poupar trabalho na hora de lavar a assadeira e acessoriamente evitar que a batatada grude. Recomendo.

2) Descasque as batatas e a abóbora sem cortar os dedos e corte em cubos pequenos. As batatas e a abóbora.

3) Faça como a batatinha quando nasce mas esparrame as batatas na assadeira e não no chão.

4) Descasque as cebolas sem chorar e corte em oito gomos. Veja se vai arrumando a cozinha pra não zonear tudo. Desfaça ps gomos grosseiramente e espalhe as cebolas em cima do tabuleiro de batatas e abóboras.

5) Jogue um fio generoso de azeite em cima de tudo. Mas não fique regulando no azeite, manda ver no dito cujo porque os alimentos são como a gente, eles adoram azeite.

6) Polvilhe pimenta do reino e sal a gosto. Recomendo ser generoso na pimenta porque ela, junto com a cebola dá um tchans no prato.

7) Coloque tudo no forno (180 graus), até que tudo esteja assado. Pode demorar uma meia hora ou menos, depende do tamanho dos cubos de batata e da sua fome.

8) Quando estiver assado, retire do forno, pique o coentro e espalhe por cima de tudo, junto com o queijo. Se precisar, dê um retoque na maquiagem do sal

O queijo derreteu? Tá pronto! Coma logo antes que esfrie, menino!

De Lou Reed ao grunge

Ouça Playlist Prateleira 01 – De Lou Reed ao grunge

No dia 2 de março de 1942 nasceu Lewis Alain Reed. Mas vamos chamá-lo apenas de Lou Reed para facilitar a conversa. Usamos a palavra artista para muita gente mas Lou Reed era a definição do termo: guitarrista, letrista, produtor, fotógrafo, poeta, Reed fundou os The Velvet Underground e mesmo depois do fim da banda, não parou mais, até a sua morte, em outubro de 2013. Eterno crítico, insatisfeito com o mundo, Lou Reed colocou palavras em sentimentos e sentimentos nas palavras que cantava. Em 1970, os Velvet Underground tocavam no Max’s Kansas City, uma casa noturna de Nova York conhecida por reunir a nata da contra-cultura novaiorquina dos anos 60 e 70. Uma garota na platéia presta uma atenção especial no grupo de Reed. Era a primeira noite de uma série de apresentações dos The Velvet Underground no Max’s Kansas City.

Essa garota de cabelos longos era Patti Smith, que nasceu em Chicago mas passou a morar em NY depois que conheceu o que ela reconhece ser uma das pessoas mais importantes da sua vida, o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Estamos no ano de 1970, época de mudanças de mentalidade e de conflito de gerações. Mas será que existe alguma década em que as gerações não entram em conflito? Felizmente não.

A casa noturna onde Smith conheceu Lou Reed, Max’s Kansas City, era um lugar onde as novas bandas de glam rock conseguiam um espaço de apresentação no meio de tanta efervescência. Debbie Harry, que viria a ser vocalista do Blondie era garçonete do Max’s nessa época. David Bowie conta que conheceu Iggy Pop no Max’s. A cena: “Lou Reed, Iggy Pop e eu sentados numa mesa sem nada para dizer, apenas olhando para as maquiagem uns dos outros”. Nesse ano, Bowie lança o clássico álbum “The Man Who Sold the World”, em que aparece na capa inglesa do LP usando um vestido. Foi o primeiro passo da era andrógina de Bowie. Ele explicou numa entrevista para a BBC que a canção que deu nome ao álbum foi escrita numa época de busca espiritual do seu verdadeiro eu. Em 1993, numa apresentação no programa Acustico MTV, o Nirvana toca The Man Who Sold the World e volta a colocar a música nos tops. David Bowie ficou orgulhoso de ter a sua música tocada pela banda de Kurt Cobain e lembra com humor quando no final dos seus shows dos anos 90, ouvia os parabéns por tocar uma música do Nirvana. Kurt Cobain homenageou também a sua herança do The Velvet Underground gravando Here She Comes, que só apareceu na versão comemorativa de 20 anos do álbum Nevermind – obra mítica da década de 90. E como nada é por acaso, uma das principais canções de Nevermind, Smells Like Teen Spirit, foi regravada por alguém que, assim como Cobain, cantou a dor e a perda, Patti Smith.

All Things Must Pass

Os Beatles acabaram, os anos passaram, George Harrison morreu, mas algumas músicas ficam. All Things Must Pass foi o primeiro trabalho de George Harrison depois da sua saída da banda e é um dos melhores álbuns do ex-beatle. O guitarrista decidiu fazer um álbum triplo, coisa rara para a época mas o material acumulado enquanto estava no grupo abundava, afinal era difícil para Harrison conseguir emplacar alguma composição própria no meio da briga de egos entre Paul e John. Na assinatura dos papéis para a separação oficial da banda, vemos George ansioso para encerrar e virar a página. E ele realmente conseguiu essa virada com um álbum excelente, cheio de referências sobre a vida, a morte, o amor e o sofrimento. Produzido por Harrison e pelo mago maluco Phil Spector, All Things Must Pass é um trabalho de abundância de talento e de estrelas, contando com a participação de Eric Clapton, Billy Preston e Bob Dylan. Tudo passa, mesmo aqueles tempos em que te ignoravam nos Beatles.

Sunrise doesn’t last all morning
A cloudburst doesn’t last all day
Seems my love is up and has left you with no warning
It’s not always going to be this grey

All things must pass
All things must pass away

Sunset doesn’t last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this, my love is up and must be leaving
It’s not always going to be this grey

All things must pass
All things must pass away
All things must pass
None of life’s strings can last
So, I must be on my way
And face another day

Now the darkness only stays the night-time
In the morning it will fade away
Daylight is good at arriving at the right time
It’s not always going to be this grey

All things must pass
All things must pass away
All things must pass
All things must pass away

Dois corpos que caem

Ilustração: Tom B

Ilustração: Tom B

Afinal não havia oito corpos em cima do antigo diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn (DSK), mas apenas seis. Essa foi a maneira de uma das advogadas de DSK, Frédérique Baulieu, contestar a amplitude das supostas orgias no hotel Carlton em Lille, e diminuindo o valor do testemunho de Jade, garota de programa que acusa o ex-patrão do FMI de proxenetismo. Pressão da mídia, raiva, revanchismo, todas as palavras não chegam para tentar culpabilizar a acusadora com uma visão condescendente. Mesma estratégia em relação aos testemunhos de M., outra garota de programa que participou nas festas libertinas e que acusava DSK de ter conhecimento de que as mulheres presentes eram prostitutas contratadas de propósito para agradá-lo. Sobre os SMS enviados por Strauss-Kahn chamando as garotas de “material”, a mesma advogada fala de “instrumentalização”.

A defesa de DSK argumentou que ele foi julgado pela sua posição social e pelo que ele é e representa. Na verdade, trata-se do oposto. Strauss-Kahn vai provavelmente ser liberado e inocentado justamente por ser quem ele é. O outro advogado de Strauss-Kahn afirma que “uma sodomia bem tratada [pela imprensa], é mais fácil de ser vendida do que uma declaração de inocência”. Estamos perante um linchamento de uma carreira. Que pena.

Não havia oito corpos sobre DSK. Esses dois corpos quase mancharam a imagem de um homem vítima do seu sucesso. Esses dois corpos não têm a mesma voz que o de DSK mas provavelmente no final farão toda a diferença.